quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A volta do morto-vivo


Ah, vida. Por mais que torçamos, sempre há teimosos que insistem em não ocupar o seu respectivo cantinho no nada cósmico.

O Google Analytics diz que, quatro meses depois de encerrado, este blog vem recebendo o DOBRO das visitas diárias que registrava em seu tempo de frenética atividade, tempo esse em que eu ralava a cara no asfalto quente do centro velho de Belo Horizonte.

Isso quer dizer certamente muita coisa, embora eu não saiba exatamente o que.

Mas a vida é assim mesmo, com o perdão do chavão. Certas coisas têm muito mais interesse depois de sepultadas.

Ainda não morri, e é por isso que escrevo mais esse post, pós-epílogo, para dizer a todos vocês: sejam bem-vindos! Embora não tenha ideia do que os traga aqui.

Ah, se vocês estiverem acessando este blog em 2059, eu lamento. Provavelmente estarei morando isolado em uma villa na Martinica, sem blog, twitter, orkut, myspace, MSN, iPhone e, principalmente, sem bLergh!, que, se vocês não sabem o que é, não vou ser eu que vou perder a droga do meu tempo explicando.

Divirtam-se.

domingo, 28 de junho de 2009

That's all folks!


E enfim aí está tudo: mal-ajambrado, remendado e claudicante, um humilde roteiro turístico casca-grossa da aprazível Belo Horizonte.

Toma como ponto de partida uma caneca de caldo de mocotó, oferece o exótico travesseiro de macela como souvenir, traz no almoço as incríveis ofertas do onipresente fast-food e, no final, deixa o visitante, sem pai nem mãe, entregue aos pegajosos e misteriosos corredores do baixo meretrício da cidade.

Tudo isso a pé, por um percurso de uns 3,5 km, com R$ 50 no bolso e nenhuma ideia na cabeça.

Obviamente, a falta de sensibilidade, de um olho mais apurado, deixou de fora muitas atrações inéditas que este centro de BH esconde, incluso aí os percevejos. Que você as descubra, quando estiver a percorrê-lo.

Iniciei este blog no final de fevereiro, dois meses antes do efetivo começo do meu período sabático. Ainda resta uma semana, tempo em que pretendo finalizar o texto do livro em que conto toda a história.

Livro esse que se não for apadrinhado por Hollywood (tá um pouco difícil; contrariando minhas expectativas, os irmãos Coen ainda não ligaram) ou por alguma editora daqui mesmo, sairá em edição única (única na concepção genuína da palavra: uma tiragem, um único exemplar) pela RanierDesireeCris Co.

Agradeço sinceramente aos que deram uma passada por essas bandas (foram mais de 1.600 visitantes nesses quatro meses). A gente continua se vendo por aí. Um abração a todos!


Exibir mapa ampliado

sábado, 27 de junho de 2009

O decreto


Veja o que os vereadores da Câmara Municipal de Belo Horizonte andam fazendo quando não estão gazeteando.

Acabaram de aprovar uma lei decretando que a cidade é, doravante, a capital mundial dos botecos.

O que significa, na prática e ao pé da letra, que anda sobrando tempo aos vereadores da Câmara Municipal de Belo Horizonte.

Ou melhor: significa algo como Paris decretar-se a capital mais linda do mundo; ou Nova York decretar-se A Capital _sem predicado; ou melhor ainda: porque nunca ninguém pensou nisto? No inverno em que quase perdeu o pescoço, Stálin poderia ter decretado Moscou inatacável por todo aquele que já tivesse dito "heil Hitler!" uma vez na vida.

Ou seja, assim como o ridículo, as possibilidades que se abrem são inesgotáveis.

P.S.: o link para a reportagem (http://globominas.globo.com/GloboMinas/Noticias/MGTV/0,,MUL1209015-9033,00.html) foi enviado pela Cris.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

As mulheres da Guaicurus


ComCeição provavelmente nunca lerá este blog. E eu quero deixar claro que não conheci ComCeição, apenas a imagino.

Eu queria dedicar-lhe este último post sobre a Guaicurus, no qual pretendo falar um pouco das mulheres que vi por lá, por acreditar que ela simboliza um pouco o que é a mulher que faz ponto nos quartos da rua Guaicurus, centro de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, Brasil.

Dedicar a ela, ComCeição, que é exatamente como estava escrito no guardanapo de cozinha grudado na porta do quarto onde trabalha.

Assim como um bairro, uma cidade, um país qualquer, o mundo da Guaicurus possui camadas sociais bem definidas. A informação de que as mulheres que se prostituem nos 16 "hotéis" daquele pequeno pedaço urbano cobram no máximo R$ 20 por programa pode levar à falsa impressão de que são 600 mulheres mais ou menos similares, no físico, na idade, na fortuna e na desgraça.

Mas as castas da Guaicurus são facilmente identificáveis. Em 3 dos 16 "hotéis", cujas mulheres cobram R$ 20 dos clientes, praticamente todas são jovens aparentemente na casa dos 20 anos. Magras, sem defeitos físicos à mostra, a maioria de pele clara. São muitas loiras (como a da última foto deste post), algumas morenas e pouquíssimas negras.

O discurso de alguns donos desses estabelecimentos, até para escaparem da acusação de rufianismo, é o de que qualquer um pode, se quiser e se pagar, se hospedar nos quartos _inclusive você_, mas é difícil não imaginar uma espécie de seleção com base em estereótipos já que o preço da diária nos 16 estabelecimentos não varia de forma significativa, cerca de R$ 60.

Os "hotéis de elite" da Guaicurus possuem um aparato mais visível, com sistema de câmeras pelos corredores, seguranças identificáveis, placas informativas, faxineiras, além de seus quartos e suas instalações serem relativamente novos.

Nos outros 13 hotéis a diversidade, humana e material, é bem maior, e o preço médio, menor _R$ 10. Desses 13, dois ou três estão no mais baixo degrau do "sistema". São identificados pelas próprias prostitutas como destinados àquelas em "fim de carreira", o que não significa que o entra-e-sai de homens seja menor.

Nesses prédios, todos muito antigos, não há sinal de reforma ao longo dos anos, todos estão em acelerado processo de decomposição e seus escuros cubículos lembram mais celas de presídio do que quartos de hotel. Em muito são similares às decrépitas hospedarias de Paris descritas por George Orwell no livro que, em parte, inspirou este projeto. É possível que até os percevejos estejam por lá.

Nas portas dos quartos, há o costume de a mulher se identificar por meio de uma toalha de rosto em que há o nome com o qual se apresenta _ou um guardanapo de papel, como no caso de ComCeição.

E há mulheres que aparentam ter 40, 50, 60 anos ou mais. Na verdade, lá elas constituem a maioria. A raia miúda da Guaicurus, no dizer delas mesmas, atende clientes por R$ 7, R$ 5. Quando lá estive, um rapaz de mochila nas costas, sacolinha de supermercado na mão e vestimenta simplória percorria quarto a quarto propondo o pagamento de R$ 1.

A mulher que ilustra a foto de abertura deste post tem 40 anos, 9 deles como prostituta, e está em um desses "hotéis". Cobra R$ 7.

Chegou à Guaicurus, segundo diz, após o marido tê-la abandonado com uma filha pequena. No começo, lavava roupas para as mulheres do "hotel" e dizia ganhar R$ 5 por dia de trabalho. Em pouco tempo começaria a fazer programas.

"Você é homem e não entende. Quando a gente fecha o olho e pensa: 'É R$ 20 que eu vou levar pra minha filha', a gente faz qualquer coisa."


Mas sua história "não é trágica não", apressa-se em dizer, chamando a atenção para a de colegas, essas sim, trágicas, que diz ter ouvido durante esses nove anos. Drogas, estupros, violência doméstica, essas coisas.

Histórias como a de uma anônima que teve a notícia de sua morte redigida assim por um site de notícias de BH, no último dia 25: "Uma mulher, ainda não identificada, foi encontrada morta na tarde desta segunda-feira (25) em um hotel da rua Guaicurus, no Centro de Belo Horizonte. De acordo com a Polícia Militar, ela foi esfaqueada e o autor do crime fugiu. Perícia e rabecão são aguardados no local."

Algumas mulheres com quem conversei posteriormente disseram que o assassino a esfaqueou para lhe roubar o laptop.

Esse é o baixo meretrício de Belo Horizonte, na rua Guaicurus, centro da cidade. Mais que cinquentenário, tolerado pela polícia e pela lendária sociedade conservadora mineira sem nenhum sobressalto relevante; e dela "escondido" sob a fachada de prédios antigos e opacos, salvo quando surge no noticiário um ou outro episódio de violência. O que, de resto, é hoje comum a qualquer centro urbano.

Mas para que fosse analisada com mais competência, observada, esmiuçada e, por fim, tivesse a alma revelada com os detalhes que lhe dispensaria um pintor renascentista, a Guaicurus mereceria uma visita bem mais qualificada. Uma visita de um João da Ega, por exemplo, com seu olho à Balzac. Um dia talvez alguém a faça.

No domingo, brindo-lhes enfim com o post-epílogo deste projeto.


PONTO 11 DO ROTEIRO: zona do baixo meretrício

ONDE: rua Guaicurus, entre Curitiba e Rio de Janeiro; e rua São Paulo, entre as avenidas Oiapoque e Santos Dumont

O QUÊ? Visita à região que reúne 16 bordéis do baixo meretrício de Belo Horizonte

QUANTO: -

HORÁRIO NO ROTEIRO: de 19h às 21h

domingo, 21 de junho de 2009

O quarto de Hilda Furacão!



Quem leu o livro de Roberto Drummond... ou mais provavelmente, quem assistiu à minissérie da TV Globo de 1998 conhece a história: sem razão aparente, uma belíssima jovem abandona uma vida de luxo e glamour e se instala no quarto 304 do Maravilhoso Hotel, no coração do meretrício de Belo Horizonte, para total escândalo da carola sociedade mineira dos anos 50.

Pois aí na foto está o quarto de Hilda Furacão hoje, 50 anos depois, revelado em primeira mão aos leitores deste blog!

Ok, ok, antes que me concedam o Esso, admito que a história não é exatamente essa, mas o que é a vida sem um pouco de fantasia?

Em Minas, muita gente acredita que Hilda Furacão tenha realmente existido, o que a levará muito provavelmente a figurar em livros de história daqui a algum tempo como fato consumado.

Isso se deve principalmente a uma estratégia de marketing usada na época da produção da minissérie, quando atores, produtores, jornalistas e o próprio Drummond (que morreu em 2002) alimentaram a romanesca versão de que a mulher era real. Para isso, até inventaram um casamento com um ex-jogador do Atlético-MG, com quem a cortesã de luxo teria se empirulitado para um exterior longínquo e insabido.

Uma embrulhada que o próprio Drummond disse tempos depois ter se arrependido, mas já era tarde: não é raro ler reportagens sobre a BH de antanho e sobre a Guaicurus em que se fale, como fato, da existência da mulher. Quando muito, manifesta-se uma dúvida sobre se ela, afinal, existiu ou não, como a exigir um arqueólogo que apareça do nada e ponha a coisa em devidos pratos limpos.

E precisar de um historiador de respeito para dizer que Hilda Furacão é uma mera personagem de ficção está no mesmo patamar de ridículo que precisar de um historiador de respeito para dizer que não, que Dan Brown não descobriu um terrível e milenar segredo cristão e que resolveu revelá-lo naquele, digamos assim, livro.

Mas enfim, que Hilda existiu na cabeça de Drummond isso é fato inexpugnável. E existiu em um lugar muito bem definido: no quarto 304 do Maravilhoso Hotel, no número 630 da rua Guaicurus.


Pois bem, o hotel não mais existe: em seu lugar, há outro, com o mesmo fim, e com o singelo nome de "Novo Hotel". Embora tenha três pavimentos, não há quartos com numeração na casa dos 300, o que sugere um admirável desprendimento marqueteiro, tendo em vista o espírito mercadológico da coisa toda.

Costeando-me um pouco na liberdade poética de toda a história, permito-me especular que o 304 da cabeça de Drummond é hoje o da foto que abre o post: o 204 do "Novo Hotel", que fica, é certo, no terceiro pavimento do prédio.

Não é habitado por nenhuma "Hilda", não tem luxo, glamour, apenas a cama, um armário, um banheiro e um criado que sustenta um aparelho de som e um rolo de guardanapos de cozinha. Mas diabos, 50 anos são 50 anos.

E em meio a essa mobília há uma jovem esguia, de pouco mais de 20 anos, que cobra R$ 20 dos clientes que se acumulam em sua porta e que não sabe dizer palavra sobre Hilda.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Sexo fast-food


Nenhum dos 16 "hotéis" da Guaicurus tem, por óbvio, placas indicando ali funcionar o que realmente ali funciona.

Mas estando no cruzamento das ruas Guaicurus e São Paulo, até um cego poderia identificar os prostíbulos.

São três as características iniciais. Primeiro, haverá sempre um porteiro, sentado, olhando de vez em quando para quem entra e quem sai. Ele nunca falará com você, visto que eles são ligeiramente mudos.

Depois, haverá uma longa escadaria que o levará para o segundo, terceiro e demais andares. Não há cobrança de entrada, roleta, tickets, é simples assim: você chega, ignora o porteiro e sobe as escadas.

A terceira característica vem justamente daí: em quase nenhum outro lugar você verá um tamanho e tão rápido entra-e-sai de homens em passo acelerado.


Vencidos os degraus da escada, o interior desses estabelecimentos também segue um sistema único, sejam eles mais organizados ou bem apodrecidos: em todos há um sem fim de corredores apertados, labirínticos, em lusco-fusco ou sob as famosas cores vermelhas, coalhados de aromas vários e com um som ambiente que lhe fará sentir saudade daquele Beethoven do caminhão de gás.

Nesses corredores, há vários, vários quartos. Pequenos, espartanamente mobiliados, alguns com lavabos ordinários, quando muito.

Dentro, as mulheres permanecem sobre as camas em posições que julgam ser mais atrativas ao formigueiro que se forma em torno das portas abertas ou semiabertas. Algumas permanecem em pé, nas portas; todas ou estão nuas ou seminuas. As que estão na cama frequentemente simulam masturbação.

O trança-trança é ininterrupto em busca de uma porta aberta e de algo a avaliar, como em um mercado qualquer. E então são feitas as negociações, rápidas, diretas ao ponto, em bom som, como nos mercados.


Tudo isso é observado por leões-de-chácara que ficam encostados em uma ou outra parede, uniformizados ou não, dependendo do estabelecimento.

Em alguns dos bordéis, há placas pedindo às pessoas que não façam "tumulto" nas portas dos quartos. Isso para evitar ter a carteira e os pertences afanados.

O preço cobrado por algo entre 15 minutos e meia hora dentro do quarto varia de R$ 5 a R$ 20, mas esse valor pode subir a depender de negociações adicionais lá dentro.

Na porta, a mulher quase sempre é perguntada sobre o que aquele dinheiro cobre: em suma, quantas posições terá o ato e se há sexo oral. O preservativo é fornecido por ela, já incluído no preço.

Cada uma delas paga um preço médio de R$ 60 aos donos dos "hotéis" pela diária do quarto. Acertado o negócio, a porta é fechada. É comum homens fazerem fila em determinados quartos, aguardando a vez.


A maioria dos que passam por ali, entretanto, só está "circulando". Muitos deles entram lá apenas para assistir à TV do corredor, que passa filmes pornográficos.

Uma estimativa sobre essa McDonald's do sexo: há entre 30 a 40 mulheres por estabelecimento, o que dá algo em torno de 600 nos 16 "hotéis". Para cobrirem só o custo do aluguel do quarto, precisariam ter uma média de pelo menos cinco clientes por expediente, coisa que, ao todo, ultrapassa 3.000 programas diários.

P.S.: o mapa em junho de 2009: descendo a Guaicurus a partir de seu cruzamento com a rua Curitiba, há cinco bordéis do lado esquerdo (no terceiro deles foi onde Roberto Drummond ambientou sua personagem Hilda Furacão) e um do lado direito. Passando a São Paulo, há mais um do lado direito (um segundo, o Hotel Imperial, estava fechado). Voltando e entrando na São Paulo à direita, há quatro bordéis do lado esquerdo e um do direito. Vire as costas e retorne pela São Paulo até atravessar a Guaicurus: há mais quatro, dois de cada lado da rua.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Guaicurus na barra dos tribunais


As ruas Guaicurus e São Paulo, que no entorno de onde se cruzam abrigam o baixo meretrício de Belo Horizonte, ficam em uma das áreas mais decadentes do centro da cidade, bem próxima à estação rodoviária.

Há algumas décadas, essa região integrava o que havia de quente na noite belo-horizontina, já que tinha estabelecimentos célebres, como o Montanhês Dancing, e ficava perto do bairro Lagoinha, o então centro nervoso da boemia da cidade.

Conta-se que a prostituição começou a instalar-se na Guaicurus por volta dos anos 50, sendo que nessa época tinha capacidade de atrair parte da elite da cidade, que se desabalava sorrateiramente rua da Bahia abaixo nas noites e madrugadas.

É dessa tempo também a existência de figuras que se tornaram depois lendárias, como a prostituta Maria "Tromba Homem" e o travesti Cintura Fina (espécie de Madame Satã de BH), que, segundo relatos, figuravam no noticiário como constante fonte de dor de cabeça para a polícia.

Foi também na Guaicurus dos anos 50 que o escritor Roberto Drummond ambientou sua personagem Hilda Furacão, sucesso ficcional que até hoje faz alguns imaginarem que ela realmente existiu.

Hoje a região não tem mais quase nenhum glamour. É apinhada de gente dia e noite; não só frequentadores dos bordéis, que são assustadoramente numerosos, mas todo tipo de gente que anda pelo centro da cidade, incluindo donas de casa e crianças. Há comércio atuante e pontos de ônibus em frente às portas dos prostíbulos. A área também é alvo do tráfico de drogas.


E a tal tradicional sociedade conservadora mineira, aceita a existência da Guaicurus?

Uma parte da resposta vem dos tribunais. Como se sabe, o Código Penal considera crime a manutenção de casa de prostituição e o favorecimento da atividade, com penas que podem chegar a oito anos de cadeia.

A Justiça de primeira instância de Minas Gerais se pronunciou recentemente sobre duas ações contra os administradores dos bordéis da Guaicurus. Nos dois casos, os réus foram absolvidos sob o argumento de que faltava de provas de cometimento de crime _em linhas gerais, provas de que as mulheres seriam obrigadas por eles a permanecerem na prostituição.

A juíza Luziene Medeiros do Nascimento Barbosa Lima escreveu em sua sentença, do final do ano passado: "A prática da prostituição em zona de meretrício é tolerada há anos tanto pela polícia quanto pelo restante da sociedade, não configurando, assim, o delito. A existência de estabelecimentos destinados à promoção de encontros sexuais é percebida e tolerada em todo o país nos dias de hoje, não cabendo punir o ilícito, sob pena de ressuscitar uma moral já ultrapassada".

Em decisão similar, do mês passado, o juiz Milton Lívio Lemos Salles também afirmou que o direito penal não deve censurar esse tipo de estabelecimento, pois são amplamente aceitos pela sociedade contemporânea. "Parece-me pouco coerente pretender condenar a manutenção deste Hotel Imperial, tendo em vista que seus quartos eram alugados para prostitutas, todas maiores e capazes."

Em minhas incursões na Guaicurus, não notei sinal da atividade de adolescentes. Apesar disso, relatório de 2002 de uma comissão da Assembleia Legislativa de Minas cita pesquisa da Fundação Mineira de Educação e Cultura segundo a qual a Guaicurus integraria um dos eixos da exploração sexual de crianças e adolescentes na cidade.

domingo, 14 de junho de 2009

A casa das 600 mulheres


Ligeiramente bêbado, sem mais um tostão furado no bolso, carregando uma sacolinha com pacotinhos de florzinhas amarelas ao lado de um livro de, sei lá, Nietzsche, você chega então ao ponto final deste roteiro. Agradeçamos aos céus.

E seria uma descarada fraude se ao me comprometer a apresentar a vocês um trajeto decadente, pé-sujo e inusual de BH eu os conduzisse a outro ponto de chegada que não a rua Guaicurus.

Para os belo-horizontinos, esse nome é autoexplicável. É, sem eufemismos, a região de prostituição popular da cidade.

Fora os cines pornô e os estabelecimentos de strip-tease, reúne em um pequeno espaço urbano 16 "hotéis" que abrigam em torno de 600 mulheres em seus quartos, o que gera um infernal e incessante entra e sai de homens desde as primeiras horas da manhã até a madrugada.

Obviamente, é claro eufemismo lascar um mero "hotel" para identificar qualquer um daqueles 16 prédios. Os dicionários e o vulgo os chamam de prostíbulos, casas de tolerância, zonas, lupanares, bordéis, puteiros, rendez-vous, casas da luz vermelha, inferninhos, mancebias e uma série de outros sinônimos que, creio, só rivalizam em quantidade com os atribuídos ao coisa-ruim.

Percorri por quase uma semana os 16 bordéis, que têm o seu epicentro na esquina das ruas Guaicurus e São Paulo. As fotos são de qualidade medíocre, já que o fotógrafo é dessa qualidade, mas principalmente porque foram feitas, naturalmente, em condições bastante adversas.

Essa história começo a contar a partir de terça-feira, ao longo de três ou quatro posts.

Antes disso, uma breve observação. A visita aqui sugerida é obviamente antropológica, sociológica, sendo que _mais uma vez chicoteando o óbvio_, cada um a realiza como bem entender.

Poupo-lhes das costumeiras considerações pueris, piegas e eufemísticas que normalmente surgem toda vez que o tema prostituição é abordado. Em um extremo, moralismo e preconceito saídos do século 19; em outro, e até como reação a esse conservadorismo, uma exaltação ingênua, bobamente alegre, que parece desconhecer a quase sempre degradante situação das mulheres que tiram daí o seu sustento.

Em vez de enfastiá-los com amadoras perorações, o que tentarei aqui é relatar da forma mais objetiva que conseguir o que vi e o que senti na semana em que estive nessa verdadeira casa das 600 mulheres.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

O fenômeno


De longe parece briga.

O comentário é de um dos frequentadores do bar aí ao lado, conhecido como Churrasquinhos do Luizinho, um local que definitivamente mereceria o que os acadêmicos chamam de um estudo de caso. Nasceu em um carrinho de espetos de gato e hoje tem que enxotar clientes porta afora.

Não, ele não vai figurar neste projeto, visto que é famoso, já pertence aos guias tradicionais, está fora do centro da cidade... Critérios que agridem este roteiro pé-sujo.

Falo do bar do Luizinho porque hoje é sexta-feira e para não dizerem que só falei de bares onde nunca gente normal colocou os pés.

Mas normal não é a palavra adequada a este caso. Há alguns anos, o Luizinho que dá nome ao bar (é o de jaleco branco na foto) começou a vender os tais espetos de gato em um carrinho ambulante na porta de sua casa, no Prado, um bairro tradicional de BH.

Tempos depois, a coisa prosperou e ele se mudou para um acanhado bar de esquina na rua Turquesa, também no Prado. Daí o treco deslanchou, sabe lá Deus como. A freguesia cresceu de tal forma que não cabia no bar, não cabia na calçada em frente, nem na rua, que ficava tomada como se fosse Carnaval. E todo mundo em pé, ou sentado em banquetas improvisadas, algumas levadas pelos próprios clientes. Em geral, gente que saía do trabalho e pegava um rush desgraçado para passar ali, depois do rush desgraçado, um descontraído happy hour.

O cardápio era simples: cerveja long neck gelada, a R$ 2,50, e churrasquinho também a R$ 2,50, tudo fornecido mediante fichas adquiridas quase a tapas. Nada de mesas, garçons empetecados, contas...

E a coisa se deu e se dá de tal forma que recentemente o Luizinho se transferiu para um imenso galpão ali perto, na Avenida Francisco Sá. Embora o espaço seja superior em umas dez vezes ao do bar antigo, a clientela continua não cabendo lá dentro e entope a calçada e a rua em frente, todo mundo em pé, espremido, a disputar a tapas as fichinhas de R$ 2,50. A vida é um Carnaval.

Semana passada estive lá. Por volta das 22h, o Luizinho parou de vender fichas com o objetivo de fechar o bar. Lá pelas 23h, com o galpão ainda cheio devido ao fato de que precavidos acumularam fichas antes das 22h, ele estava no trailer do outro lado da rua, tomando uma cerveja, sozinho, no humilde concorrente.

Diabos o carreguem...


quarta-feira, 10 de junho de 2009

Um roteiro de prestígio


Não deve ter mais do que uns 60 metros quadrados. Em vez daquela janotada da Savassi, é frequentado por uma gente diversificada, mulheres de programas, mal-encarados, bêbados, desocupados... Em três palavras, é um bar e café de prestígio.

Na checagem básica, encontram-se todos os ingredientes indispensáveis: uma prateleira repleta de jurubebas Leão do Norte. Um banheiro com o essencial (mictório sem bolinhas coloridas!, e uma pia que, valha Deus, há de funcionar). Cerveja gelada e, como dito acima, uma freguesia cativa e cativante.

Mas o atrativo principal para que, entre tantas assombrosas opções do centro de Belo Horizonte, o bar Prestígio figure neste guia está no balcão que fica ali logo à cara, lambendo a rua.

Nele há uma variedade de colossos da culinária mundial repousando sob generosas rodelas de cebola, pimentão e afins. Todos têm uma cara sebosa e grudenta que indicam terem sido feitos não muito tempo antes. E estão ali prontinhos para serem servidos a você em um pratinho de metal.

Eu, embora com grande peso no coração, deixaria de lado a dobradinha, o chouriço, o tropeiro, a carne cozida com batatas, o ovo colorido e o fígado com "giló" para me concentrar no suculento e pujante pé de porco, que, como todos sabem, é o mais delicioso cola-artéria da história, ou quase isso.

Ficamos assim, então: após declamar umas batatinhas quando nascem nos arcos de Drummond, siga novamente até a avenida Afonso Pena, dobre à direita e, quando chegar à Espírito Santo, desça novamente à direita. A cerca de uns 300 metros, um pouco depois da esquina com a Caetés, fica o Bar e Café Prestígio.

Tome lá três cervejas de garrafa (não é muito, vai, cê é um homem ou um pé de alface?) e, para petiscar, sirva-se de dois generosos pedaços de pé de porco. Dá R$ 11,80, o que o deixará com R$ 1 sobrando para dar de gorjeta, comprar um chiclete, uma mineira (a loteria) ou levar de volta de recordação.

Você não precisará do vil metal no próximo e último ponto deste roteiro, que será esmiuçado nos posts seguintes, a partir de domingo.


PONTO 10 DO ROTEIRO: Bar e Café Prestígio

ONDE: rua Espírito Santo, 241

O QUÊ? Tomar três cervejas e comer dois pedaços de pé de porco

QUANTO: R$ 11,80

HORÁRIO NO ROTEIRO: de 17h às 18h30

domingo, 7 de junho de 2009

É hora de Mr. Hyde assumir o comando deste roteiro


Como se sabe, me propus a traçar um roteiro maldito de 12 horas por Belo Horizonte, a pé, com R$ 50 no bolso.

Nesse dia fictício _que um dia você percorrerá, eu sei que vai_, chegamos quase às 17h. E, heroicamente, ainda não derramamos nenhuma gota de álcool.

Perdão, com exceção do café da manhã, que levou catuaba e cerveja preta, em dose moderadíssima e acompanhada de ovos de codorna com casca.

Então, corrigindo: ...heroicamente, ainda não derramamos nenhuma gota de álcool que não estivesse misturada a bosta de codorna.

E já entornamos caldos de mocotó, compramos livros, ervas, almoçamos hambúrguer, palramos com gentis vigaristas e quase subimos no alto dos arcos do viaduto para declamar poesia.

Pois já são cinco da tarde, o sol toma o caminho de casa, a noite se anuncia e os primeiros gatos pardos começam a colocar os bigodes à mostra.

Antes que eu seja laureado como o bom samaritano do ano, vamos derrubar uns cascos e outras coisas mais por aí. Se você ler os posts anteriores, verá que ainda restam R$ 12,80 dos R$ 50 que trazia no bolso. E eles não serão gastos com coisas edificantes, eu prometo.

É hora, como diz o título, de Mr. Hyde tomar as rédeas deste roteiro. Eu tiraria as crianças da sala.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

'Fodas o governo'


Reza a lenda que em cima destes octogenários arcos aí da foto um dia trepou o poeta Carlos Drummond de Andrade.

E como quem conta a lenda é gente como Humberto Werneck e Fernando Sabino _ele próprio outro literato-alpinista_, sou forçado a acreditar.

E a indicar o local ao leitor deste blog.

Se subiu nos arcos ou não, o certo é que Drummond respirou os ares deste viaduto, que liga o centro de Belo Horizonte, mais precisamente a lendária rua da Bahia, ao caminho que dará no tradicionalíssimo bairro de Santa Tereza. Lá pelos anos 30. Assim como Sabino e seus amigos por lá encerraram bebedeiras nos anos 40.

Se não me engano, este roteiro pé-sujo está estacionado na Praça Sete, coração da cidade. Basta seguir a avenida Afonso Pena no sentido das montanhas até chegar à rua da Bahia. Lá, vire à esquerda. Você avistará logo o Parque Municipal (foto), que abrigará terras de sua propriedade caso tenha feito negócio com algum dos igualmente lendários corretores de lotes do parque.

Poucos metros depois você já estará na entrada do viaduto. Após uma boa caminhada, é hora de parar e apreciar os belos arcos. Se não for assaltado, talvez lhe acometam uns fumos literários.

Os arcos estão bela e devidamente pichados de cima a baixo. Com toda aquela literatura peculiar, erudita, ininteligível quase em sua poesia própria. No topo de um dos arcos, destaca-se a singela inscrição "'fodas' o governo". É muito provável que não tenha sido feita por Drummond.

PONTO 9 DO ROTEIRO: viaduto de Santa Tereza

ONDE: início da rua da Bahia

O QUÊ? Os arcos de Drummond

QUANTO: -

HORÁRIO NO ROTEIRO: de 16h às 16h20

terça-feira, 2 de junho de 2009

Obrigado, senhor Coyote


Tenho pelo ócio uma solene e respeitosa admiração. Só quando nos desembaraçamos do escritório, e das sensaborias que nos caem sobre a cabeça como tomates podres, é que temos, realmente, a oportunidade de desfrutar o que chamam por aí de la dolce vita. E de apreciar o belo, de amar as coisas e as pessoas, de refletir sobre tudo e sobre nada.

Em um desses momentos de profundo exercício filosófico, entrei em uma lojinha do centro de Belo Horizonte que, para minha alegria, está entre aquelas que se especializaram em comprar e vender livros, revistas, discos e objetos que para a quase totalidade da humanidade mereceriam tão somente pular dentro de um incinerador.

Não tinha destino certo, não sabia o que queria ali dentro e nem tinha ideia do que faria quando saísse. Em meio a tanta coisa colorida, velha, empilhada, amarrotada, mofada e esquecida, me interessei por Sarah Marsh.

Não, não exatamente por Sarah Marsh, mas pelo passado de Sarah Marsh. Os terríveis segredos escamoteados por aquela balzaquiana de olhar enigmático manifestaram em mim um incontrolável impulso de sacar R$ 2 e adquirir aquele exemplar.

"O Coyote" foi uma das várias coleções de livros de bolso que tanto sucesso fizeram na segunda metade do século passado.

O personagem, um justiceiro mascarado à Zorro, passa a vida a, como diz sua mulher, "castigar, felicitar, ajudar ou aborrecer" quem lhe atravessa a frente. Em vez de um Z, marca os malfeitores _os que lhe escapam com vida_ com um tiro certeiro na orelha. "Não se podem fazer gracejos com ele. Surge onde menos se espera e faz sempre aquilo que se teme mais."

Coyote foi criado nos anos 40, na Espanha, pelo escritor José Mallorquí Figuerola, e teve cerca de 200 histórias publicadas, tendo chegado ao Brasil nos anos 50 pela editora Monterrey.

E em busca de descobrir o terrível passado de Sarah Marsh, me deparei com um detalhe do passado de Mallorquí que me intrigou. Sua biografia assegura que ele deu cabo da vida na madrugada de 7 de novembro de 1972, aos 59 anos, depois de rabiscar um breve "no puedo más" _e apenas poucas horas depois de, do outro lado do Atlântico, eu vir à luz em uma enfermaria qualquer de BH.

Não significa grande coisa; não significa nada, a rigor, mas é tremendamente impressionante para mim o fato de 36 anos depois, sem mais nem menos, eu entrar em uma morada de traças em Belo Horizonte e me interessar por uma obra sua que falava sobre o misterioso passado de Sarah Marsh.

A propósito, seu passado é o seguinte: ela escondera do marido o fato de que Nick Garry era, na verdade, seu irmão. O marido, tomado de ciúmes, meteu três tiros no Nick, o que naturalmente esculhambou com o seu casamento. Coube ao astuto Coyote contar a Sarah e ao marido, 18 anos depois, que na verdade os tiros não mataram Nick Garry. Ele teria sido morto depois, por desafetos. Sarah e o marido, cada um sabendo da mentira do Coyote, mas sem admiti-la um ao outro, aceitaram-a de bom grado como verdade e recomeçaram a vida, pimpões e saltitantes.

Como diz frase ao final do livro:

_Obrigado, senhor Coyote.

domingo, 31 de maio de 2009

A capa!


Voltei por alguns dias a Brasília, para uma parada técnica, e na falta de coisa melhor para fazer usei os meus avançadíssimos conhecimentos de desenho, pintura artística e photoshop para bolar uma possível capa para o livro caseiro que possivelmente sairá deste projeto.

Por livro caseiro entenda-se uma grandiosa co-produção com a Cris e a Desireê (R$ 10 pra cada, pode ser?) para a uma edição única, de único exemplar, que seja lá quais forem as críticas invejosas se esgotará ainda na noite de autógrafos!

Esta capa é uma adaptação (ok, 99,9% photoshop e 0,1% de avançadíssimos conhecimentos de desenho e pintura clássica) de uma foto que fiz de forma anônima (ia passando, clique no celular, assobio...) há duas semanas em determinado ponto deste roteiro.

Embora não seja eu o personagem, assumi naqueles belos dias posições tão ou mais filosóficas do que essa. Deixo de falar onde tirei a foto, além de ter descaracterizado a imagem e borrado o rosto do personagem, para que não seja identificado o autor da colaboração involuntária.

Uma outra possibilidade de capa é a que segue abaixo. Embora eu mesmo me assuste às vezes com o que venho bolando para a reta final do roteiro, acho que dificilmente conseguirei uma foto que simbolize melhor o que imaginei para este projeto sabático.




sábado, 30 de maio de 2009

Ainda na praça...


A colega Júlia Tavares, que tem um blog em que conta as impressões de uma paulistana em BH (http://tutumineiro.blogspot.com/), também é uma eventual frequentadora da Praça Sete, local por onde passa toda a sorte de mineiros e mineirices.

No final do ano passado, deparou-se com a figura aí ao lado (a mais alta, de barba).

Taí uma boa pedida para quem acaba de almoçar no McDonald`s, ali pertinho. Tirar uma
McFoto, palitando os dentes, ao lado do Bin Laden.
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